Radar do Direito
Notícia

Filho que cobra pensão de pai que mora no exterior não paga tradutor se tiver justiça gratuita

Resposta rápidaSim. Em julgamento de 20 de outubro de 2026, divulgado no Informativo 908 do STJ em 3 de novembro, a Quarta Turma decidiu que a gratuidade de justiça dada à criança que pede pensão ao pai que mora fora do Brasil cobre o tradutor juramentado. Ele traduz os documentos da carta rogatória para o idioma do outro país. O Estado paga e pode cobrar o valor depois.
Neste artigoO problema: o pai mora fora e a tradução custa caroO que o STJ decidiuOs argumentos do tribunalO que isso muda na práticaPerguntas frequentesFontes

O problema: o pai mora fora e a tradução custa caro

Quando o pai (ou a mãe) que deve pensão mora em outro país, a ação de alimentos não termina no Brasil. A Justiça brasileira precisa enviar uma carta rogatória ao país onde ele vive para que seja citado e responda ao processo. E essa carta, com os documentos que a acompanham, tem de ser traduzida por tradutor juramentado para o idioma de destino.

Quem paga essa tradução quando a criança não tem dinheiro? Foi essa a pergunta que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O que o STJ decidiu

A Quarta Turma, por unanimidade, respondeu que a gratuidade de justiça concedida à criança alcança a remuneração do tradutor juramentado. O custo fica com o Estado, que pode buscar o ressarcimento depois.

O julgamento ocorreu em 20 de outubro de 2026, com relatoria do ministro Raul Araújo. O processo corre em segredo de justiça, como é comum em causas de família, e a tese foi divulgada no Informativo de Jurisprudência n. 908, publicado em 3 de novembro de 2026.

Os argumentos do tribunal

Três pontos sustentaram a decisão.

O primeiro é o acesso à Justiça. A Constituição garante assistência jurídica integral e gratuita a quem comprovar falta de recursos (art. 5º, LXXIV). Para o STJ, a gratuidade perderia sentido se a ação de alimentos ficasse parada por falta de dinheiro para uma despesa indispensável como a tradução.

O segundo é o Código de Processo Civil. O art. 98, § 1º, VI, inclui na gratuidade a remuneração do tradutor nomeado para verter documento estrangeiro para o português. O texto não fala da tradução no sentido inverso, mas a Turma entendeu que a regra é exemplificativa e que não há motivo para tratar de forma diferente a tradução para o português e a tradução do português para outro idioma.

O terceiro são os tratados. A Convenção de Nova York sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro (Decreto 56.826/1965) garante ao credor de alimentos as mesmas isenções de custos dadas aos residentes e proíbe exigir dele caução para litigar. Exigir que a criança pague a tradução antes iria contra essa lógica.

O que isso muda na prática

Para a família que cobra pensão de alguém que mora fora, a decisão afasta um obstáculo comum: o processo não deve travar porque a mãe ou o responsável não consegue pagar o tradutor, quando a criança tem justiça gratuita.

Vale lembrar outro entendimento do STJ, noticiado pelo Migalhas em fevereiro de 2020: em ação de alimentos para criança ou adolescente, a Terceira Turma decidiu que a gratuidade não pode depender de prova de que o responsável legal também não tem recursos. A outra parte, porém, pode demonstrar depois que os requisitos do benefício não estavam presentes.

Se o pedido de tradução gratuita for negado, a decisão do STJ pode ser citada no processo. Quem não tem advogado pode procurar a Defensoria Pública.

Para casos de família que ainda não chegaram à Justiça, a conciliação também é um caminho: veja o que dizem os tribunais na nossa notícia sobre a Semana Nacional da Conciliação.

Perguntas frequentes

O que é carta rogatória?

É o pedido que a Justiça brasileira envia à Justiça de outro país para praticar um ato lá, como citar o pai que mora no exterior.

Por que a tradução é necessária?

Porque a carta e os documentos precisam ir no idioma do país de destino, traduzidos por tradutor juramentado.

Quem paga o tradutor quando a criança tem justiça gratuita?

Segundo a Quarta Turma do STJ, o Estado arca com o custo, com possibilidade de ressarcimento posterior.

A decisão vale só para traduções do estrangeiro para o português?

Não. O STJ disse que não há razão para diferenciar a tradução de entrada da tradução de saída do português para outro idioma.

Onde pedir ajuda se não posso pagar advogado?

A Defensoria Pública do seu estado atua em ações de alimentos para quem não tem condições de pagar.

Fontes

Revisão jurídica: Matheus Lorenzen do Amaral, advogado (OAB/RS 90.061 e OAB/SC 74.552), Araranguá/SC.
Atualizado em 4 de novembro de 2026. Conteúdo informativo, sem consultoria individual e sem oferta de serviços.

Continue lendo